Patrocinio / MG - terça-feira, 26 de setembro de 2017

Diabetes

 
 

 
Diabetes: Doença Traiçoeira
Por Karina Alvarenga Ribeiro
Médica CRM - MG 40811 
Endocrinologia e Metabologia
Especialização em Nutrologia
De acordo com CENSO IBGE de 2010 são doze milhões, cinquenta quatro mil, oitocentos e vinte sete brasileiros (12.054.827) portadores de diabetes. Os números são preocupantes, mas também é motivo de preocupação o fato de a maior parte dos portadores não saberem que tem a doença. 
O Diabetes é uma doença traiçoeira. É possível viver muitos anos com níveis de glicemia altos,  sem qualquer sintoma sintoma que indique o problema. Entretanto, mesmo silenciosamente, o diabetes vai danificando órgãos e sistemas do ser humano - danos estes,  irreversíveis. Por isso precisamos estar alertas com relação a exames de rotina ou avaliações médicas periódicas.
Algumas histórias são comoventes e merecem destaque:
1 – Paciente interna com queixa de vômitos e cefaléia importantes há três dias. Nos exames da internação, apresentou glicemia de 500mg/dl e perda renal total com necessidade de realizar hemodiálise para o resto da vida. Ao ser indagada: não gostava de ir ao médico e não sentia nada relevante para fazer exames de rotina.
Essa paciente poderia ter evitado a perda do rim (insuficiência renal) se tivesse realizado exames precocemente e procurado tratamento adequado.
2 – Paciente interna com ferimento no primeiro dedo do pé direito, o qual estava muito infeccionado. Estava em tratamento com antibióticos receitados pela farmácia do bairro há um mês. No momento da internação, apresentava muito suor e mal estar. O ferimento precisou de limpeza profunda e antibióticos via endovenosa (na veia),  mas isso não foi o suficiente. A infecção estava incontrolável e foi necessário amputar o pé para controlá-la e preservar a vida do paciente. No momento da internação sua glicemia era de 450 mg/dl.
Esse paciente também poderia ter prevenido a amputação do pé se tivesse tratado o diabetes precocemente.
3 – Paciente procura o médico com queixa de cegueira súbita. Na conversa, ele diz que às vezes apresentava vista embaçada, mas achava que não era nada demais. Também não gostava de procurar médico. No momento da consulta, glicose de 320 mg/dl e todos os vasos sanguíneos dos olhos acometidos pelo diabetes, o que chamamos de retinopatia diabética. Diagnóstico: cegueira irreversível.
O paciente também poderia prevenir essa cegueira com diagnóstico precoce do diabetes e tratamento adequado.
4 – Paciente dá entrada na emergência com o lado esquerdo do corpo paralisado, fala empastada (pouco nítida) e enrolada, boca torta. Nesse momento a glicose estava 680 mg/dl. O paciente sabia que do diabetes, mas não gostava de falar esse nome e negligenciava o tratamento. Não seguia dieta adequada e não gostava de fazer atividade física. Agora recebe diagnóstico de acidente vascular cerebral isquêmico – “Derrame”.
Essa paciente também poderia ter prevenido o “derrame” se tivesse retornado ao médico e seguido suas recomendações.

5 – Paciente dá entrada na emergência com parada cardio-respiratória,  que foi revertida adequadamente por um médico competente. Ainda na UTI, o paciente recebeu o diagnóstico de diabetes com glicemia de 420mg/dl e foi medicado corretamente. Os exames indicaram um infarto agudo do miocárdio,  que se repetiu uma semana depois,  com nova parada cardíaca e óbito.
Todos esses episódios trágicos poderiam ser evitados com tratamento adequado do diabetes. Diabetes causa todas essas complicações de modo silencioso e insidioso, com poucos sinais e sintomas. Por isso é necessário o ALERTA:  fazer exames de rotina quando indicado pelo médico pode preservar a vida.

1 – O que é o diabetes?

Diabetes é uma doença silenciosa,  causada por uma deficiência de insulina ou uma dificuldade na ação da mesma. O organismo para funcionar adequadamente e necessita de energia,  que vem da glicose ou dos carboidratos.

Quando ingerimos alimentos que contém estas substâncias, eles digeridos e elas caem na corrente sanguínea para serem distribuídos por todo organismo. Entretanto não conseguem entrar sozinhos na célula para levar energia. Nesse momento a insulina (hormônio produzido pelo pâncreas) age na parede da célula colocando a glicose para dentro. Quando há uma deficiência na produção de insulina, ou mesmo quando esse hormônio não consegue atuar na célula de modo eficaz, sobra glicose no sangue e falta energia para realização das tarefas diárias. É como um automóvel com tanque cheio de combustível, mas sem a bomba injetora para transportar o combustível para o motor.

2 – Quais são os sintomas do diabetes?

Na maior parte das vezes o diabetes não apresenta sintomas. É uma doença silenciosa. Porém, podem surgir sintomas como boca seca com vontade excessiva de tomar água, poliúria – urinar várias vezes ao dia, fome ( muita fome) dores nas pernas, cansaço e fadiga, náuseas e vômitos, emagrecimento, visão embaçada, dormência nos dedos, tontura, dificuldade de cicatrização, impotência sexual, infecções vaginais (candidíase) e outros.

Diante de tudo isso é importante sempre procurar o médico a fim de prevenir um mal maior. Quando diagnosticada no início a doença é de fácil manejo e na maioria das vezes exige apenas o uso de comprimidos e um estilo de vida saudável que pode ser conquistado passo a passo. 
Negligenciar essa doença traiçoeira é pagar um preço alto demais diante da beleza que é a vida. É abrir mão da liberdade e da qualidade do viver. 


Como entender o paciente diabético?

Receber o diagnóstico de Diabetes gera uma profunda transformação no mundo das pessoas. Vivenciá-la implica em aprender a viver com certas limitações, com situações que exigem domínio físico e psicológico de si mesmo. Requer um elevado grau de atenção e automonitoramento. 
O paciente precisa manter o controle glicêmico, a dieta saudável e rigorosa, a atividade física regular, a disciplina quanto aos horários dos medicamentos, o uso da insulina e, principalmente, ser capaz de controlar o estresse diante de sua rotina, geralmente marcada por falta de tempo e correria. É preciso ser capaz mesmo vivendo uma "realidade fast-food", com altos níveis de exigência no trabalho, pressão social a todo momento, instabilidade econômica e ausência de diálogo e tempo com pessoas importantes. É nessa realidade que o médico recomenda ao paciente que pratique uma hora de atividade física por dia, que faça refeições saudáveis e em horários corretos e que maneje adequadamente o estresse e a ansiedade. 
Diante deste contexto cabe a nós médicos, profissionais da saúde, familiares, amigos e sociedade entender as dificuldades do paciente diabético. Espera-se que, ao receber o diagnóstico, o paciente e seus familiares passem por algumas fases mais ou menos bem demarcadas até seja capaz de enfrentá-la de forma adequada. Elas são as mesmas enfrentadas em situações de luto. Confira abaixo quais são
Negação 
Tanto o paciente quanto sua família agem como se não existisse o diagnóstico. Continuam com os mesmos hábitos e elaboram diversos argumentos para justificar o próprio comportamento - entre os quais, muitas vezes, encontram-se falas de que não está acontecendo nada, de que não há problemas em dar uma "escapadinha" da dieta porque não é nada tão grave, entre outras semelhantes. Não se trata de negligência ou descuido com a própria saúde, mas sim, de não ser capaz de lidar com a Diabetes e enorme a carga emocional que a acompanha. 
Revolta

Marcada por atitudes rebeldes ou até agressivas para com os familiares, amigos e principalmente com os profissionais responsáveis pelo tratamento. Entre estas atitudes, as mais comuns são dizer que o tratamento não está gerando resultados, questionar a competência do profissional responsável ou a efetividade de suas recomendações ou culpar familiares pelo problema. 
Barganha

O paciente busca por fórmulas mágicas para se curar, como chás, pilulas naturais, novenas, orações, garrafas com "simpatias da vovó". Existem ainda aqueles que fazem o controle da doença de forma compulsiva. 
Depressão

Geralmente o cliente apresenta sentimentos de desamparo e tristeza intensa, nesta fase. É comum aparecerem relatos de que não vale mais a pena lutar. 
Aceitação 

Marcada pela tomada de consciência do estado real de saúde e das possibilidades de tratamento. Nesta etapa, o paciente costuma fazer uso correto dos medicamentos e seguir adequadamente as recomendações dos profissionais responsáveis. 
Estas fases podem aparecer em diversas ordens e podem oscilar (ir e vir) ao longo da vida do paciente diabético. Tanto os profissionais da saúde quanto os familiares precisam estar atentos para apoiá-lo e ajudá-lo na aquisição de autoconhecimento e superação delas. Existem vários estudos mostrando, por exemplo, que quando os pais de uma criança ou adolescente diabético aceitam a doença, as chances dele também aceitá-la e tratar-se de forma adequada são bem maiores. Pais muito ansiosos com o problema, por outro lado, tendem a agir de forma permissiva para com o filho, vitimizando-o ou transferindo para ele a ansiedade. Neste cenário o diabético não assume a responsabilidade por seu tratamento e tem dificuldades para atingir e manter a fase de aceitação. 
Com o passar do tempo o diabético percebe que pode usar a doença para barganhar coisas materiais ou o afeto dos pais - gerando o que, em Psicologia, é chamado de "ganho secundário com a doença". Este quadro psicológico e emocional é perigoso, pois quando o paciente permite uma descompensação da glicose, submete-se ao risco das complicações agudas e crônicas características da doença, colocando a própria vida em risco. 
Pais super-protetores correm os mesmos perigos. Eles acabam impedindo o filho de exercer as atividades normais da vida e de assumir as responsabilidades que deve assumir frente à doença e seu tratamento. Além disso, o Diabetes pode atuar como exacerbador das deficiências e conflitos familiares existentes e o paciente assume o papel de depositário do problema. 
Famílias com padrões rígidos tendem a agir de forma rígida com a doença, o que pode gerar agressividade e violência. Pais com medo e culpa tendem a privar o paciente de várias coisas normais da vida, prejudicando de forma severa o desenvolvimento de sua personalidade. Nessa quadro o paciente torna-se excessivamente dependente da família. 
Sobre doces, afeto e família
É muito comum pacientes diabéticos associarem doces a amor e afeto, o que contribui para que busquem chocolates e outras guloseimas quando estão se sentindo ansiosos ou solitários. Isso acontece principalmente quando, ao longo da vida, o indivíduo com frequência recebia guloseimas de pessoas queridas, ou ainda, estes alimentos eram usados como "compensação" ou "calmante" em momentos emocionalmente difíceis. Para superar esta associação, o apoio psicossocial é fundamental. 
Superando as Barreiras Emocionais e Psicológicas
Na maioria das vezes os familiares que vivenciam as dificuldades junto com o paciente também precisam de tratamento e orientação psicológica. Manter o controle do diabetes e vivenciar uma rotina saudável no mundo moderno não é tarefa fácil, mas é possível. É necessário apoio familiar para que isso aconteça. 
Os aspectos emocionais tem um papel preponderante na aceitação e na responsabilidade para com o tratamento, tanto por parte do paciente, quanto de seus familiares. O foco deve ser no desenvolvimento de estratégias mais saudáveis para lidar com o medo, revolta, culpa, bloqueio afetivo, ansiedade e imaturidade. Quando o paciente adquire repertório comportamental para lidar melhor com as próprias emoções e demais características pessoais, há maior envolvimento com o tratamento, comportamento positivo em relação à superar barreiras, cooperação, vida ativa e adaptativa. 
Jamais devemos vitimizar o paciente, mas sim, cultivar uma atitude positiva e motivadora  que o ajudará a superar as dificuldades e se adaptar ao mundo moderno mesmo com diabetes. É preciso superar as contradições destes dois cenários, sejam quais forem as dificuldades, como se faz em uma disputa pela taça de uma competição.